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A psicanlise

 - indispensvel que o mdico, o especialista em doenas nervosas, aprofunde seus conhecimentos psicolgicos, se
quiser ajudar seus clientes, porque as perturbaes nervosas (ou tudo que se designa por nervosismo, histeria, etc.) so 
de origem psquica e exigem, obviamente, um tratamento da alma. gua fria, luz, ar, eletricidade, etc., so de efeito 
passageiro e muitas vezes no produzem nenhum efeito. O padecimento do doente vem da alma, de suas funes mais 
complexas e profundas, que mal ousamos incluir no campo da medicina. Nesses casos, o mdico precisa ser psiclogo, isto 
, um conhecedor da alma humana. 
Antigamente, ou seja, quase 50 anos atrs, a formao  psicolgica do mdico ainda era das mais deficientes. Seu manual de 
psicologia limitava-se exclusivamente  descrio e  sistematizao clnica das doenas psquicas, e a psicologia ensinada 
nas faculdades era ou filosofia ou a chamada psicologia experimental, introduzida por Wilhelm Wundt. Da escola de 
Charcot, na Salptrire de Paris, vieram os primeiros estmulos para uma psicoterapia das neuroses: Pierre Janet 2 iniciou 
suas pesquisas sobre a psicologia dos estados neurticos, que fizeram poca; Bernheim retomou com sucesso, em Nancy, 
a proposta de Libault de tratar as neuroses pela sugesto, proposta esta que j tinha cado no esquecimento. Sigmund 
Freud traduziu o livro de Bernheim, e isto foi para ele um estmulo decisivo. Naquela poca, ainda no existia nenhuma 
psicologia das neuroses e psicoses. Cabe a Freud o mrito  imorredouro de ter lanado as bases para uma psicologia das 
neuroses. Seu 
 
ensinamento resultou da experincia adquirida no tratamento prtico das neuroses, isto , da aplicao de um 
mtodo, que ele chamou de psicanlise. 
Antes de entrar numa exposio mais detalhada da  matria propriamente dita,  preciso dizer algo sobre a sua 
posio  em relao  cincia da poca. Presenciamos um espetculo que confirma mais uma vez a observao 
de Anatole France: Les savants ne sont pas curieux, os cientistas no so curiosos. O primeiro trabalho de 
maior envergadura realizado nesse campo mal chegou a provocar um eco distante, apesar de ter introduzido 
uma interpretao totalmente nova das neuroses. Alguns autores faziam pronunciamentos elogiosos a 
respeito, mas, ao virar a pgina, prosseguiam em suas descries de casos de histeria,  maneira habitual. 
Agiam, portanto, mais ou menos como algum que reconhecesse e aprovasse a idia ou o fato de que a terra  
redonda, mas mesmo assim continuasse a represent-la tranqilamente com a forma de um disco. As 
publicaes seguintes de Freud passaram inteiramente despercebidas, apesar de conterem observaes de 
suma importncia para a rea especfica da psiquiatria. Quando Freud escreveu a primeira verdadeira psicologia 
dos sonhos, em 1900 (anteriormente, trevas absolutas imperavam nesse campo), ridicularizaram-no. E quando, 
por volta de 1905, comeou a lanar as primeiras luzes sobre a psicologia da sexualidade , puseram-se a 
vituperar. Essa tempestade de protestos eruditos pode ter sido a principal responsvel pela publicidade sem 
precedentes alcanada pela psicologia de Freud, notoriedade esta que superou de longe os limites do interesse 
cientifico. 
 Por isso, temos que apreciar mais de perto essa nova psicologia.  J no tempo de Charcot, sabia-se que o 
sintoma  neurtico  psicgeno, isto , proveniente da alma. Sabia-se tam bm graas principalmente aos 
trabalhos da Escola de Nancy, 
que qualquer sintoma histrico pode ser provocado pela sugesto. Conheciam-se, igualmente, atravs das 
pesquisas de Ja net as condies psicomecnicas dos surtos histricos, como 
anestesias, paresias, paralisias e amnsias. Mas no se sabia 
como um sintoma histrico pode proceder da alma. As relaes psquicas causais eram totalmente 
desconhecidas. Em 1880, 
o Dr. Breuer, velho clnico vienense, fez uma descoberta que, 
na realidade, se  tornou o comeo da nova psicologia. Tinha uma jovem cliente, muito inteligente, que sofria de 
histeria, isto , para sermos mais exatos, acusava, entre outros, os seguintes sintomas: uma paralisao 
espasmdica (hesta) afetara- lhe o brao direito; era acometida por repetidas ausncias ou estados de 
sonolncia; alm disso, tinha perdido o domnio da linguagem, pois no sabia mais falar sua lngua materna e 
no conseguia expressar-se seno em ingls (a chamada afasia sistemtica). Na poca, tentaram elaborar 
teorias anatmicas para explicar tais distrbios, apesar de as partes do crebro em que esto localizadas as 
funes do brao no se apresentarem mais afetadas do que as de uma pessoa normal. A sintomatologia da 
histeria  repleta de impossibilidades anatmicas. Uma senhora, que havia perdido completamente a audio 
devido a uma afeco histrica, punha-se a cantar freqentemente. Certa vez, quando a cliente entoou uma 
cano, o mdico sentou-se ao piano despercebidamente e a acompanhou em surdina. Na passagem de uma 
para outra estrofe, mudou repentinamente de tom. A paciente, sem se dar conta, prosseguiu, cantando no 
novo tom. Logo, ela ouve e no ouve. As vrias formas de cegueira sistemtica apresentam fenmenos 
semelhantes. Um homem sofre de cegueira histrica total. No decorrer do tratamento, readquire a viso, mas, a 
princpio e durante muito tempo, apenas parcialmente: v tudo, exceto as cabeas das pessoas; v todas as 
pessoas que o cercam, sem cabea. Logo, ele v e no v. Pela observao de uma vasta srie de experincias 
desse tipo, ficou comprovado que s a parte consciente do doente no v ou no ouve, mas, de resto, a 
funo do rgo do sentido est em perfeita ordem. Esse estado de coisas entra em contradio frontal com o 
carter de um distrbio orgnico, que sempre afeta a funo em si. 
Aps essa digresso, voltemos ao caso de Breuer. No existiam causas orgnicas que justificassem a 
perturbao. O caso devia ser considerado histrico, isto , psicgeno. Breuer havia notado que o estado da 
cliente melhorava durante algumas horas, cada vez que a deixava falar  em estado de sonolncia provocada ou 
espontnea  de todas as reminiscncias e fantasias que lhe ocorressem. Utilizou-se disso sistematicamente, no 
decorrer do tratamento. A cliente inventou um nome: 
chamava-o de talking cure (conversa teraputica) ou ento, ironicamente, de chimney sweeping (limpar a 
chamin). 
A cliente adoecera quando cuidava do pai, mortalmente enfermo. Como  compreensvel, suas fantasias 
giravam principalmente em torno dessa poca repleta de emoes. As suas reminiscncias daquele tempo 
ressurgiam, nos estados de sonolncia, com tamanha preciso e com tantos detalhes, que se podia supor que 
um pensamento desperto jamais as teria reproduzido com a mesma forma e exatido. (Essa intensificao da 
memria, que no raro se produz nos estados de conscincia diminuda,  denominada hipermnsia). Coisas 
inslitas foram sendo reveladas. Um dos relatos dizia mais ou menos o seguinte: Certa noite, velava o doente, 
que ardia em febre, angustiadssima com o seu estado e muito tensa, porque estavam  espera de um cirurgio 
de Viena que vinha para oper-lo. A me afastara-se por algum tempo e Ana (a paciente), sentada  cabeceira, 
apoiava o brao direito sobre o espaldar da cadeira. Ps-se a sonhar acordada e viu uma cobra preta vindo da 
parede e aproximando-se do doente, prestes a mord-lo. ( muito provvel que no campo, atrs da sua casa, 
realmente existissem algumas cobras que j haviam assustado a menina anteriormente e que agora forneciam o 
material para a alucinao). Queria repelir o animal, mas estava como que paralisada: o brao direito, que pendia 
sobre o espaldar da cadeira, estava dormente, anestesiado e paresiado; quando olhou para ele, seus dedos 
transformaram-se em pequenas cobras com caveiras nas pontas. Provavelmente, estava querendo afugentar a 
cobra com a mo direita paralisada. Por isso a anestesia e a paralisia ficaram associadas  alucinao com a 
cobra. Quando esta desapareceu, quis rezar, angustiada; mas no conseguiu: no podia falar lngua alguma; 
at que, finalmente, se lembrou de um verso infantil em ingls e pde continuar a pensar e a rezar nessa lngua. 
Nesta cena ocorreram paralisia e distrbio da fala. Ao relat-la, isso desapareceu. Consta que o caso foi 
completamente resolvido dessa maneira. 
bem compreensvel que cenas dessa natureza tenham um efeito muito grande e reproduzam uma profunda 
impresso. Por esta razo, tendemos a atribuir-lhes significado causal na gnese do sintoma. A teoria 
procedente da Inglaterra, energicamente defendida por Charcot, do nervous chock (choque nervoso), que na 
poca dominava a interpretao 
da histeria, prestava-se muito bem para  explicar a descoberta de Breuer. Da resultou a chamada 
teoria do trauma, segundo a qual o sintoma histrico e, na medida em que os sintomas constituem a 
doena, a prpria histeria vm da psique abalada (trauma), persistindo inconscientemente durante 
vrios anos as impresses produzidas. Freud, que a princpio era colaborador de Breuer, pde 
comprovar fartamente essa descoberta. Ficou demonstrado que nenhuma das espcies de sintomas 
histricos se produz por acaso, e que esses so sempre causados por fatos que abalam a psique. 
Assim sendo, a nova concepo abria um vasto campo de trabalho emprico. O esprito pesquisador 
de Freud, porm, no podia fixar-se por muito tempo nessa constatao superficial, pois j surgiam 
problemas mais profundos e bem mais difceis.  bvio que momentos de intensa angstia, como os 
vividos pela paciente de Breuer, podem deixar marcas indelveis. Mas como  que ela viveu esses 
momentos, to nitidamente marcados pelo patolgico? Ser que o cansao dos cuidados dispensados 
ao doente poderiam ter provocado esse efeito? Neste caso, coisas semelhantes deveriam ocorrer 
com muito maior freqncia, pois, infelizmente, so muitos os casos de atendimento a doentes, 
extremamente extenuantes, e a sade nervosa da pessoa que presta esses cuidados nem sempre  
das melhores, evidentemente. Para este problema temos na medicina uma excelente resposta. 
Dizemos: o X do problema  a predisposio. As pessoas so predispostas a tais coisas. Mas 
Freud indagava: em que consiste essa predisposio? O levantamento dessa questo levou, 
logicamente,  investigao da pr-histria do trauma psquico. Ora,  freqente observar-se que 
cenas de forte contedo emocional, presenciadas por diversas pessoas, tm um efeito diferente 
sobre cada uma delas: coisas indiferentes ou mesmo agradveis para algumas so consideradas 
repugnantes por outras. Haja vista o caso de sapos, cobras, ratos, gatos, etc. H mulheres que 
assistem tranqilamente a operaes com efuso de sangue, mas que se pem a tremer de medo e 
nojo ao simples contato de um gato. Sei do caso de uma jovem que ficou sofrendo de histeria aguda, 
por causa de um susto. Acabava de sair de uma festa. Era meia-noite; em companhia de vrios 
amigos, ia a p para casa. De repente, aproximou-se deles, por detrs, uma carruagem em 
disparada. Todos afastaram-se para os lados, menos essa moa, que, tomada de pnico, ps-se a 
correr no meio da rua, na frente dos cavalos. 
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O cocheiro estalava o chicote e vociferava. De nada adiantou. Ela desceu a rua inteira, correndo como uma 
desesperada. Chegando a uma ponte, j sem foras, achou que o imnico meio de escapar aos cavalos seria 
jogar-se ao rio. Por sorte, havia l transeuntes que a detiveram. Esta mesma pessoa esteve por acaso em S. 
Petersburgo, no fatdico dia 22 de janeiro de 1905, e presenciou uma operao do exrcito que varria a rua, com 
rajadas de fogo.  sua direita e  sua esquerda as pessoas iam caindo por terra, mortas ou feridas. Mantendo 
grande calma e presena de esprito, assim que avistou um prtico, esgueirou-se para a outra rua, escapando 
s e salva. Esses momentos de horror no lhe causaram maiores problemas. Depois de ter presenciado tudo 
isso, encontrava-se perfeitamente bem e at com mais disposio do que antes. 
Esse tipo de comportamento pode ser observado com bastante freqncia. Donde se conclui que a intensidade 
de um trauma, em si, tem pouca determinao patognica, mas este deve ter para o paciente um significado 
particular. Em outras palavras, no  o choque em si que provoca invariavelmente a doena, mas esta ocorre 
quando ele encontra uma determinada disposio psquica, que poderia ser o fato de o paciente atribuir 
inconscientemente um significado especfico ao choque. Seria esta a chave do segredo da predisposio? 
Vejamos: quais as circunstncias peculiares da cena da carruagem? O medo tomou conta da jovem assim que 
ela ouviu aproximar-se o tropel dos cavalos. Numa frao de segundo teve a impresso de que fatalmente lhe 
ocorreria alguma desgraa terrvel, como a morte, ou algo semelhante. A essa altura dos acontecimentos, j 
tinha perdido por completo o poder de raciocinar. 
Parece que o momento decisivo foi determinado pelos cavalos. A reao irresponsvel da moa a um 
acontecimento to insignificante deve ser atribuida a uma predisposio; provavelmente, os cavalos tinham 
para ela um significado todo es pecial. No seria infundada, por exemplo, a suspeita de que alguma experincia 
perigosa em seu passado estivesse ligada a cavalos. A confirmao dessa suspeita no tardou. Quando a 
paciente tinha sete anos de idade, durante um passeio de carruagem, os cavalos dispararam, aproximando-se 
em vertiginosa corrida de um barranco que descia abruptamente para um rio. O cocheiro saltou, gritando-lhe 
que fizesse o mesmo. O medo de morrer a impedia de obedecer, mas por fim saltou a tempo, um segundo antes 
dos cavalos e da carruagem carem no abis mo 
Seria desnecessrio provar por A + B que so profundas as impresses deixadas por 
acontecimentos desse tipo. No entanto, isso no explica por que mais tarde uma simples e inofensiva 
sugesto da situao provocaria uma reao to descabida. At aqui, sabemos apenas que o 
sintoma manifestado mais tarde teve um prembulo na infncia, O que h de patolgico no caso, 
porm, no foi esclarecido.  preciso conhecer outros dados, para que se possa penetrar nesse 
mistrio.  medida que as experincias foram-se multiplicando, foi sendo provado que na totalidade 
dos casos at ento analisados existia, ao lado dos fatos traumticos da vida, uma perturbao de 
ordem especfica, situada no plano ertico. Amor, como se sabe,  um conceito vastssimo, que 
pode alcanar cus e infernos, em que se conjugam o bem e o mal, a nobreza e a baixeza. Com essa 
descoberta, operou-se na interpretao de Freud uma reviravolta considervel. Freud, baseando-se 
inicial- mente na teoria do trauma de Breuer, procurou a causa das neuroses nos acontecimentos 
traumticos da vida. Mas, depois dessa descoberta, deslocou o centro do problema para outro plano, 
bem diverso. Podemos pegar o caso citado como exemplo. J compreendemos que os cavalos 
desempenharam, evidentemente, um papel peculiar na vida da paciente; mas o que no entendemos 
 sua reao posterior, absurda e exagerada. A anormalidade da histria  que cavalos totalmente 
inofensivos a assustam. Como se descobriu que juntamente com os eventos traumticos da vida 
desenvolve-se uma perturbao na rea ertica, baseamo-nos nisso para investigar se algo de 
anormal aconteceu nesse sentido. 
A jovem conhece um rapaz de quem pretende ficar noiva; ama-o e espera que seu casamento seja 
feliz. Fora isso, nada se descobre de imediato. A investigao, no entanto, no pode ser abandonada 
aps o resultado negativo de uma questo superficial. Existem caminhos indiretos, quando o direto 
no conduz  meta. Voltemos, pois, quele momento estranho em que a moa saiu correndo  frente 
dos cavalos. Indagamos a respeito dos amigos que a acompanhavam e da festa a que tinha ido. Fora 
um jantar de despedida de sua melhor amiga, que ia ausentar-se para um tratamento prolongado 
numa estao de guas no exterior, por causa de seu estado nervoso. Segundo ela, a amiga  
casada, feliz e me de um filho. Podemos duvidar da informao acerca da felicidade da amiga, 
porque, se assim fosse, provavelmente no teria razes para estar 

nervosa, necessitando de tratamento. Mais adiante, fazendo algumas perguntas, fiquei sabendo que, 
assim que os amigos a alcanaram, minha cliente foi reconduzida  casa do anfitrio, por ter sido 
esta a maneira mais fcil de acomod-la quela hora da noite. L chegando, em seu estado de 
esgotamento, teve uma acolhida hospitaleira. Neste ponto da narrativa, a paciente silenciou, 
embaraada e confusa, tentando mudar de assunto. Tratava-se talvez de uma reminiscncia 
desagradvel que de repente surgira. Aps vencer a resistncia obstinada da paciente, fiquei 
sabendo que naquela mesma noite ocorrera outro incidente inslito. O amvel anfitrio lhe fizera 
uma ardente declarao de amor, o que, em vista de partida da dona da casa, criara uma situao 
um tanto difcil e embaraosa. Ela disse que essa declarao a surpreendera como um relmpago 
num dia de sol. Mas essas coisas sempre costumam ter seus antecedentes. Nas semanas seguintes, 
o trabalho consistiu em desenterrar, fragmento por fragmento, uma longa histria de amor, at 
recomp-la por inteiro. Tentarei fazer um resumo: 
A paciente, quando criana, sempre tivera atitudes de menino. S gostava de brincadeiras 
turbulentas, zombava do seu prprio sexo, reprimia toda feminilidade e evitava qualquer ocupao 
feminina. Depois da puberdade, quando poderia ter comeado a se interessar pelo aspecto ertico, 
passou a fugir de toda companhia, odiando e desprezando tudo quanto mesmo de longe lhe 
lembrasse a condio biolgica da pessoa humana. Vivia num mundo de fantasias, que nada tinha a 
ver com a realidade. Assim, foi-se furtando, at aos 24 anos de idade, a todas as pequenas 
aventuras, esperanas e expectativas que normalmente agitam interiormente a mulher nessa idade. 
Foi quando teve a oportunidade de se aproximar de dois homens, que deveriam romper a cerca de 
espinhos que crescera ao seu redor. A era o marido de sua melhor amiga e B, um amigo 
solteiro. Gostava de ambos. No entanto, logo lhe pareceu que gostava muito mais de B. No tardou 
em estabelecer-se uma relao de intimidade entre ela e B, e j se falava num possvel noivado. 
Devido s suas relaes com B e com sua amiga, era freqente o seu contato com A, cuja 
proximidade muitas vezes a deixava agitada e inexplicavelmente nervosa. Naquela poca, a paciente 
e seus amigos participaram de um banquete. Em dado momento, estando ela a brincar distrada com 
seu anel, este subitamente lhe escapou da mo, indo rolar para baixo da mesa. Os dois homens 
puseram-se a procur-lo. Foi 
B quem o encontrou. Colocou-lhe o anel no dedo com um sorriso expressivo e perguntou: Sabe o 
que isso quer dizer? Ela teve imediatamente uma reao estranha, irresistvel: arrancou o anel do 
dedo e jogou-o longe, pela janela aberta. Seguiu-se, naturalmente, um momento de embarao e logo 
de. pois ela se retirou, deixando os amigos, com um mau humor insuportvel. Pouco tempo depois, 
foi passar as frias de vero numa estncia, onde, por coincidncia, o casal A tambm veraneava. 
A mulher de A comeou a ficar visivelmente nervosa e, como no se sentisse bem, muitas vezes 
no saa de casa. Logo, a paciente tinha oportunidade de passear sozinha com A. Uma vez, foram 
dar uma volta de barco. Ela estava contente e animada. De repente, perdeu o equilbrio e caiu na 
gua. Como no soubesse nadar, A s conseguiu salv-la com muita dificuldade, puxando-a j meio 
desfalecida para dentro do barco. Foi ento que ele a beijou. Esse interldio romntico ligou-os mais 
fortemente um ao outro. No entanto, a paciente nunca permitiu que a profundidade dessa paixo lhe 
viesse  conscincia, provavelmente por ter-se habituado desde cedo a negligenciar impresses 
dessa espcie, ou melhor, a esquivar-se delas. Para justificar-se perante si mesma, fez tudo para 
apressar seu noivado com B, convencendo-se de que o amava. Obviamente, esse jogo 
surpreendente foi logo captado pela aguada percepo do cime feminino. Intuitivamente, sua 
amiga percebera o segredo e torturava-se com isso, o que aumentou seu nervosismo. Donde a 
necessidade de um tratamento e sua viagem ao exterior. Na festa de despedida, o esprito maligno 
aproximou-se da nossa doente e sussurrou-lhe ao ouvido: Hoje  noite ele estar sozinho; alguma 
coisa deve acontecer contigo para que venhas  sua casa. E foi o que aconteceu: seu estranho 
comportamento a levou para a casa de A. Assim, conseguiu seu intento. 
Esclarecido isso, no haver quem no acredite que s um requinte diablico poderia imaginar e 
executar um encadeamento de circunstncias igual a esse. Do requinte, ningum duvida; mas o 
julgamento moral  altamente suspeito. Insisto em afirmar, energicamente, que os motivos que 
levaram a essa dramatizao da paciente no eram, de forma alguma, conscientes. Parecia que tudo 
lhe acontecera por acaso, sem que tivesse conscincia de qualquer um dos motivos. Mas todos os 
antecedentes deixam bem claro que tudo estava inconscientemente programado para esse fim. 
Enquanto isso, a  consciencia 
esforava-se para levar a bom termo o seu noivado com 1 A compulso inconsciente de seguir pelo outro caminho fc 
entretanto, mais forte. 
 Aqui voltamos s nossas consideraes iniciais, isto , questo da origem do patolgico (ou seja, o inslito, o exag rado) da 
reao ao trauma. Baseado em outras experincia suspeitei que nesse caso particular tambm havia, alm d trauma, uma 
perturbao de ordem ertica. Essa suspeita f inteiramente confirmada e leva  concluso de que o traum motivo aparente 
da doena, nada mais  do que a oportun dade que algo que est fora do domnio da conscincia  ist , um importante 
conflito ertico  tem de se manifesta Assim sendo, o trauma perde a exclusividade, sendo substitud por uma interpretao 
muito mais abrangente e profunda, qu envolve um conflito ertico como agente patognico. 
 Muitas vezes perguntam: por que a causa da neurose ter que ser justamente um conflito ertico e no outro conflit 
qualquer? A isso pode-se responder que ningum afirma qu assim seja, mas tem sido provado que  o que acontece ma 
freqentemente. Apesar de todas as asseres indignadas er contrrio, a verdade  que o amor, com todos os seus pr( 
blemas e conflitos, tem um significado fundamental na vid humana. Pesquisas srias tm provado, constantemente, que sua 
importncia  muito maior do que o indivduo suspeita. 
 Renunciou-se, portanto,  teoria do trauma, por estar si perada. O fato de se reconhecer que no  o trauma, mas ur. 
conflito ertico oculto, que est na raiz da neurose, faz cor que o trauma perca o seu significado causal. 
8. No sentido lato que lhe  atribudo naturalmente e que no compreende apena 
a sexuadade. Tambm no queremos dizer que o erotismo e suas perturbaes sejas 
a nica fonte das neuroses. As perturbaes cio amor podem ser de natureza secundria e provocadas por causas mais profundas. Existem 
ainda outras possibilidades 
de nos tornarmos neurticos. 
